A água como recurso indispensável à nossa sobrevivência está se tornando
cada vez mais escassa.
O pior é que a explosão demográfica e as persistentes
agressões ambientais estão agravando as perspectivas. Acresce que os interesses daqueles que disputam os mesmos recursos vão se
enfrentar com intensidade cada vez maior.
Esta é a situação presente no Oriente
Médio, onde os conflitos em torno do
rio Jordão estão exacerbando as hostilidades nos povoados e acampamentos. O mesmo ocorre na América Latina, onde
Chile e Bolívia discutem seus
direitos sobre fontes e nascentes de cursos d'água. Hostilidades entre Índia e Paquistão, Bangladesh e Nepal
acontecem pela mesma razão. A disputa pelo rio Eufrates confrontam a Turquia e a Síria. O Egito ameaça
seus vizinhos com a guerra, caso persistam no objetivo de obstruir o curso superior do rio Nilo com represas.
Metade da população mundial vive em países interligados por rios ou lagos
comuns e, portanto, igualmente dependentes de seus recursos hídricos. A água pode
facilmente tornar-se um meio de exercer-se pressão e poder quando as relações entre vizinhos deterioram-se até por outros motivos.
A água constitui o pré-requisito essencial para a prosperidade e o desenvolvimento. Um país
que constrói uma barragem para satisfazer sua demanda crescente por energia elétrica pode afetar o suprimento d'água do
vizinho que precisa irrigar suas plantações e pastagens naturais.
Os conflitos de interesses sobre questões envolvendo os recursos hídricos
são inúmeros, e acordos, só alcançados após longas negociações, não precisam ser muito duráveis. A
maneira mais segura de evitar disputas em torno da água é, a partir de agora,
não desperdiçá-la a fim de garantir maior quantidade do precioso líquido para
todos.
O setor agrícola requer, para as regiões áridas, cerca de 90% dos
recursos hídricos disponíveis. A maior parte das vezes, entretanto, eles não
são usados com eficiência. Muito embora as bananeiras exijam grandes quantidades de água, elas são cultivadas nos desertos palestinos. Uma
plantação de bananeiras cobrindo uma área de 1 hectare consome 17 metros cúbicos de água por semana. Sistemas de irrigação superdimensionados
causam desperdícios maiores.
A água doce subterrânea precisa ser melhor explorada através de poços
artesianos (sic). Estimativas otimistas avaliam que se perdem de 40% a 60% de toda água tratada por mau uso, desvio e
irresponsável esbanjamento. A Organização para a Agricultura e a Alimentação das Nações Unidas
considera prioridade número um a modernização dos sistemas de irrigação
existentes. Muitas colheitas tiveram que se adaptar à escassez de água. Técnicos agrícolas desenvolveram uma
variedade de arroz que cresce e amadurece em menos de trinta dias do tempo normalmente necessário para as
espécies convencionais.
Quantidade inestimável de água é desperdiçada nas cidades devido a
vazamentos em redes de abastecimento e ligações clandestinas - os chamados
gatos. Acima de tudo, o consumo irresponsável do recurso valioso desfalca a oferta
existente até nos países industrializados. Por exemplo, apenas cerca de 5% da
água potável é realmente utilizada para beber e preparar os alimentos. Mais
da metade de toda oferta é jogada fora através dos ralos de banheiras, chuveiros, vasos sanitários, calçadas e
lava-jatos.
Como as próprias companhias de saneamento não confiam na potabilidade da
água que fornecem, devido a evidentes sinais de contaminação das fontes, resolvem
adicionar maiores quantidades de cloro, tornando-a intragável e até prejudicial à saúde.
Apesar de toda água pura disponível estar sendo
continuamente reduzida, apenas 5% são reutilizados. O Banco Mundial estima que mais de seiscentos
bilhões de dólares precisarão ser investidos em todo o Planeta nos sistemas de abastecimento na próxima década para evitar perdas
no consumo de água.
O mais grave é a transformação dos rios em verdadeiros
esgotos, tal a poluição causada pelos assentamentos ilegais em suas margens. Evita-se
enfrentar desde o início as verdadeiras causas dos problemas, contentamo-nos em combater os efeitos com paliativos, adiando e
dificultando sua resolução. Prefere-se gastar cinco vezes mais com a remediação de agressões ambientais do que investir na prevenção confiável
do saneamento básico.
Assim como já se pensa em reciclar os recursos hídricos, um projeto da
Universidade Federal Fluminense (UFF) em parceria com a Universidade de Tübingen, Alemanha, desenvolve um reator em escala
industrial capaz de converter matéria orgânica do esgoto em fonte de energia. Aquecidos a
temperaturas superiores a 350º, os dejetos se transformam em combustível, apressando artificialmente, nas estações de
tratamento, um processo natural que normalmente levaria bilhões de anos.
Miranda Neto
Economista
(E-mail: miramazon@zipmail.com.br)