
Este artigo foi publicado
por "O Liberal" - Belém, em 09/02/2000
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Água vale mais que petróleo
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Miguel Ignatios
Presidente Nacional da ADBV
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No próximo século, que está para começar, as nações não vão brigar por
petróleo ou alimentos. Nada disso. Elas vão disputar por todas as vias
possíveis, da diplomática até a ocupação militar pura e simples, a água
doce que restar no planeta. Portanto, as guerras futuras, se a humanidade não se
organizar melhor e mais racionalmente, serão por rios, lagos e quaisquer outras fontes de água. Felizmente, para nós,
brasileiros e latino-americanos, o continente em que vivemos é privilegiado, já que concentra quase dois terços das reservas
conhecidas desse líquido, sem o qual a vida é impossível.
A relativa abundância de água doce em território brasileiro
não deve, contudo, ser motivo para que nos despreocupemos. Ao contrário, devemos desde já começar a adotar uma série de
medidas visando ao planejamento do seu consumo futuro. Uma última comparação com o
petróleo e com a atitude precavida de nossos irmãos do norte do continente americano: os Estados
Unidos dispõem hoje de reservas de carvão e petróleo capazes de sustentar o consumo anual de
combustíveis fósseis pelo prazo de cinco séculos!
Vamos, pelo menos uma vez na vida, desde já, imitar os
americanos, na definição de uma política racional para o uso e o consumo de água.
Alguém já deve ter dito que a civilização tropical é, por definição, baseada no ato do desperdício.
Talvez devido ao fato de a vida em todas as suas manifestações ser exuberante nessas partes do planeta. Com um
território imenso e quase todo ele de clima tipicamente tropical, nosso país formou em cinco séculos uma população especializada em
desperdícios. Da comida ao lixo, passando pelos banhos diários das pessoas e semanal do carro, nosso cotidiano está recheado
de exageros culturais desnecessários. Somos um povo (precisamos reconhecer isso!)
atavicamente amantes do desperdício. No consumo de água, com certeza, somos,
disparados, campeões mundiais do gasto desnecessário.
Por tudo isso, não será tarefa fácil mudar a cabeça do
brasileiro e fazer com que ele algum dia venha a usar racionalmente a água. Mas vale a
pena tentar. Não sou especialista no assunto, mas isso não me impede de fazer
algumas considerações sobre a definição de uma política para o uso racional da água. Em primeiro lugar, é preciso que o
governo dê o exemplo e comece a despoluir nossos rios, lagos e mananciais. Caso
contrário, em curto espaço de tempo, haverá um colapso no abastecimento de água das grandes cidades
brasileiras.
Uma segunda medida, que me parece óbvia, é cobrar tarifas diferenciadas de acordo com o regime hídrico de cada região do
País. No Sudeste, por exemplo, no período da seca (de abril a novembro), a
água deveria ser sobretaxada para inibir o consumo. Já de dezembro a março, época das cheias, as tarifas
poderiam ser rebaixadas.
É necessário também, a exemplo do que já ocorre com a energia
elétrica, colocar um selo no consumo da água. Por exemplo: se a água for usada como insumo industrial, caso das bebidas,
é justo que seu preço seja mais elevado, uma vez que ele será embutido como custo no preço final do produto a ser
comercializado. O mesmo raciocínio é válido também para as usinas hidrelétricas. Elas deveriam
pagar royalties aos municípios próximos às barragens pelo uso, atualmente
gratuito, da água destinada a girar as turbinas.
Por último, me atrevo a sugerir mais duas medidas. Uma para já
e outra para daqui a uma ou duas décadas. Não basta as companhias de água
pedir aos consumidores que economizem água. Será preciso uma campanha educativa, de longa duração, e que
choque a população. Mais ou menos como as campanhas contra a Aids. Ela deve
atingir as
donas de casa que todas as manhãs tagarelam com as vizinhas, após molharem o quintal e o jardim,
e não fecham as torneiras. Ela deve chegar aos faxineiros dos prédios que diariamente lavam a parte térrea
e que às vezes usam a água como vassoura. E às pessoas que perdem parte dos
sábados e domingos lavando o que parece ser o seu bem mais precioso: o carro.
A medida de longo prazo, que já pode começar a ser estudada, é
como vir a reutilizar, no futuro, a água já usada uma vez. Acho que ela seria
muito útil para irrigação agrícola, lavar roupa, quintais, carros e como
descarga. Naturalmente, a preços bem mais baratos. A água de primeiro uso, digamos
assim, destinar-se-ia exclusivamente para consumo das pessoas, para uso na comida e nas bebidas.
O tema é bastante abrangente e instigante e, por isso, deve, necessariamente, passar a fazer parte do nosso cotidiano,
antes que a realidade da degradação e do desperdício seja irreversível.
Miguel Ignatios
Presidente Nacional da ADVB
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