Água
e etimologia
ÁLVARO
CUNHA
As águas simbolizam a totalidade das virtualidades, elas são as
fontes e as origens, a matriz de todas as possibilidades de existência.
Água, tu es a fonte de todas as
coisas e de toda a existência!, diz um texto indiano, sintetizando
a longa tradição védica. As águas são os fundamentos do mundo
inteiro, elas são a essência da vegetação, o elixir da imortalidade;
elas asseguram longa vida, força criadora e são o princípio de toda a
cura. Que as águas nos tragam o
bem-estar!, Suplicava o sacerdote védico. As
águas, em verdade, curam, elas expulsam e curam todas as doenças!
Princípio do indiferenciado e do virtual, fundamento de toda a
manifestação cósmica, receptáculo de todos os gérmenes, as águas
simbolizam a substância primordial de que nascem todas as formas e para
a qual voltam, por regressão ou por cataclismo. Elas foram no princípio,
elas voltarão no fim de todo o ciclo histórico ou cósmico; elas
existirão sempre.
Ela pode ser, também, descrita cientificamente como liquido
incolor, inodoro, insípido, encontrado nos mares, rios, lagos; em
estado sólido, constituindo o gelo e a neve; em estado de vapor visível
formando a neblina e as nuvens; e em estado de vapor invisível no ar.
As ÁGUAS PRIMITIVAS, sinônimo da GRANDE DEUSA-MÃE, sempre
despertaram o interesse daqueles que ou estudam o misticismo, ou são
membros de qualquer religião monoteísta. A simbologia que a água tem
é visível desde tempos remotos e fascina grandes civilizações, como
por exemplo, os egípcios, os chineses, os babilônios e os hindus.
Precisamos redescobrir os tesouros simbólicos desta tão sagrada
fonte de vida, energia e renascimento; para isso, mergulhemos no
misticismo que as águas possuem.
No livro do Gênesis, capítulo 1, versículo II está escrito: A
terra era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o
Espírito de Deus pairava sobre a face das águas.
Enquanto para nós, hoje em dia, água é somente água; para as
antigas civilizações a água, com suas ondas revoltas, foi o símbolo
da forma indeterminada, que paradoxalmente podia adquirir todas as
formas. Trocando em miúdos, era a desarmonia total que seria
transformada em ordem, ser, beleza e harmonia.
Bom, se assim continuarmos raciocinando, veremos que os gregos
chamavam ao universo criado de KOSMOS, que quer dizer beleza, ordem, enfeite.
Não é preciso estudar a língua grega para saber que a palavra COSMÉTICO
significa produto de higiene, elegância
e beleza, que por sua vez
traduz a exata idéia daquilo que os gregos queriam dizer com a palavra
universo, ou seja, da DESORDEM surgiu a ORDEM, a BELEZA e a MARAVILHA
que é o nosso mundo.
O vocábulo latino MUNDUS revela igual situação à palavra grega
KOSMOS, assim: MUNDUS quer dizer limpo,
lindo, enfeitado, harmonioso, elegante,
bem tratado, equipado, mobiliado;
MUNDUS ficou significando o universo depois da criação, todo adornado
e belo. Sua antítese é IMUNDUS, isto é, a sujeira,
a imundície, o lixo, a desordem,
o caos.
A idéia de caos e desordem possuía uma imagem bem concreta, isto
é, a água, o mar, os abismos do oceano.
Ao que tudo indica, Gênesis tem uma simbologia e tanto no trato
com a água, mas o que de fato os antigos queriam dizer com a imagem da
água?
Os dicionários de simbologia nos revelam que várias culturas e
mitos interpretam essa palavra (ÁGUA) quase que da mesma maneira, a
saber:
·
No Egito antigo era simbolizada por caracteres
em forma de onda, pente ou ziguezague;
·
A água é comparada ao caos e à matéria
primeira por não possuir forma;
·
Em Thales de Mileto ela é a origem de todas as
coisas;
·
Segundo a mitologia egípcia, o monte
primordial ergueu-se da água primordial (representada pelo deus Nun);
·
Na tradição indiana, a água carrega o ovo do
mundo;
·
A água, nas culturas indígenas, é na maioria
das vezes concebida como um elemento feminino;
·
Na China associada ao Yin;
·
Como chuva fertilizadora da terra também pode
ser igualada ao semen virile;
·
A água é símbolo de vida, morte e
renascimento;
·
O dilúvio não trouxe apenas a ruína,
conduziu também a arca de Noé para uma nova vida;
·
Os egípcios esperavam que a água como fluxo
que provém de Osíris, libertasse da rigidez da morte;
·
A deusa babilônica Ishtar precisou descer ao
reino dos mortos para buscar a água da vida;
·
A idéia da Água da Sabedoria é bíblica;
·
Na psicologia profunda a água escura, insondável,
é símbolo do inconsciente. O estado da água pode indicar o próprio
sentimento da alma. Goethe: alma
do homem, como te assemelhas à água!
Pode-se perceber que a água não é um conceito simples. Nem
poderia ser, já que encerra em si a origem do universo.
Para abreviar um pouco mais, vejamos a paleografia, quer dizer, os
gráficos antigos, desde os hieróglifos até o alfabeto, a fim de
mostrar a imagem visual e simbólica da nossa Mãe-Água.
Observe bem a correlação entre essas idéias: ÁGUA, MÃE, CRIAÇÃO,
NASCIMENTO, VIDA.
Em chinês escreve-se a palavra MAR usando dois símbolos: água e
mãe. O francês tem o mesmo som para mãe e mar: la mere (mar), la mère
(mãe). A letra M é o belo monumento criado pelos antigos, sintetizando
toda sua concepção do mundo nascente. Sem conhecer etimologia e
simbologia, as crianças chamam por sua mãe com a letra M em cerca de
cem idiomas espalhados pelo planeta.
Veja que o M tem a forma de uma onda. Essa letra provém dos
alfabetos semitas primitivos, onde M se diz MEM (água). Os semitas, por
sua vez, foram buscar essa letra entre os egípcios. Em egípcio, o M se
diz MU, MI e significa água, oceano. O hieróglifo retrata com perfeição as ondas do mar.
Nosso M é a simplificação do hieróglifo, mas note uma coisa: o
MU egípcio ou M não significa apenas água.
Significa também MÃE, SEMENTE, ESPERMA. Nos alfabetos de todas as línguas,
a letra M é seguida da letra N, que os semitas denominam NUN e
significa peixe e filho.
ÁGUA e PEIXE, MÃE e FILHO estão sempre juntos. Até na ordem das
letras do alfabeto.
Ainda acha que é coincidência demais? Então o que nos diz a
respeito da mitologia, paleografia, e até da etimologia;
coincidentemente as duas letras M e N estão sempre juntas em todos os
alfabetos do mundo, recordando o que elas significam.
A
HISTÓRIA DA LETRA M
MU — MÁIM = ÁGUAS
Nos hieróglifos egípcios, nos cuneiformes e nos alfabetos antigos
·
SÍMBOLOS: água, peixe, serpente, ondas, vaso
com água;
·
IDÉIAS EXPRESSAS PELOS SÍMBOLOS: nada, caos,
confusão, indeterminado, sem nome, mundo primordial, cataclismo
universal, origem do mundo, vastidão, mãe, filho, nascimento;
·
Nossa letra M tem a forma duma ONDA como os gráficos
antigos.
·
As letras M — N estão sempre juntas porque
significam: ÁGUA e PEIXE, MÃE e FILHO.
Deste modo todas as valências metafísicas e religiosas das águas
constituem o conjunto de uma coerência perfeita. Qualquer que seja o
conjunto religioso de que façam parte as águas, a função delas é
sempre a mesma: elas desintegram, extinguem as formas, lavam
os pecados, purificando e regenerando ao mesmo tempo. O seu destino
é preceder a criação e reabsorvê-la, não podendo nunca superar a
condição do virtual, dos gérmenes e dos estados latentes. Tudo o que
é forma se manifesta acima das águas, destacando-se das águas. Em
compensação, logo que qualquer forma se destaca das águas, deixando
por isso de ser virtual, cai sob a alçada da lei do tempo e da vida;
adquire limites, passa a conhecer a história, participa do dever
universal, corrompe-se e acaba por se esvaziar de sustância, se não se
regenera por imersões periódicas nas águas, se não repete o dilúvio
seguido da cosmogonia.
As lustrações e as purificações rituais com a água têm por
finalidade a utilização fulgurante daquele
tempo, in illo tempore em
que teve lugar a criação: elas são a repetição simbólica do
nascimento dos mundos ou do homem
novo. Todo contato com a água, quando é praticado com uma intenção
religiosa, resume os dois momentos fundamentais do ritmo cósmico: a
reintegração nas águas, e a criação.
Álvaro Cunha
(Linguista/ Professor)