MINHA ÁGUA, MINHA VIDA
A
suposta infinitude da natureza é concebida desde os tempos mais
remotos, em que o homem caçava mamutes, e os imaginava intermináveis.
Equívocos semelhantes se percebem em pleno século XXI em
deliberados flagrantes de agressão à água do planeta, que é também
um subjacente atentado à vida.
Lord
Byron, poeta inglês, já no século XIX enfatizava que “até que o
sofrimento humano lhe ensine, o homem não avaliará o valor da água”.
A
água é tão importante quanto a luz do sol, o solo e o ar.
Cobrindo cerca de 71% da crosta terrestre; responsável por 70%
do peso corpóreo dos humanos e por grande parte das estruturas dos
vegetais, ela é, sem dúvida, o grande milagre da vida.
Além
de ser o líquido indispensável ao desempenho das funções vitais de
todos os seres vivos, é parte integrante do cotidiano humano desde as
atividades mais simples, porém não menos importantes, como as domésticas;
às mais complexas e fundamentais à existência, como as industriais.
As
águas nos inundam de felicidade.
Lavam a nossa roupa, nosso corpo e nossa “alma”.
Subsidiam o nosso lazer; quando tranqüilas, amparam
navegantes; quando rebeldes, produzem energia e progresso.
A
imensidão de água exposta aos nossos olhos, contrasta com
preocupante realidade. Embora
sendo uma substância abundante em nosso planeta, a água doce e potável,
necessária à vida vegetal e animal, não é tão farta assim, apenas
3%. Ainda mais dramático:
apenas 1% do total está disponível para beber, haja vista que as
calotas de gelo, as geleiras, representam 2%.
É
necessário, então, que haja conscientização, preservação e
responsabilidade no seu trato, pois dela depende o futuro da
humanidade. Projeções,
nada otimistas, apontam esse líquido precioso como motivo de guerra
neste século. Nada
sensacionalista quando se tem notícia de que 250 milhões* de
pessoas, em 26 países, enfrentam problemas com a escassez de água e
já se registram no mundo todo mais de 10 milhões de mortes por ano,
resultantes de doenças transmitidas pela água.
“Tragam-me
um copo d’água, tenho sede/ e esta sede pode me matar”.
É assim que começa a música “Tenho Sede”, composta por
Anastácia e Dominguinhos e que ficou mais conhecida pela interpretação
do cantor e compositor baiano Gilberto Gil.
Realmente, a sede pode matar, mais que isso: a água também
pode matar.
O
planeta Terra, tal como o Titanic, navega em direção de icebergs
para o conseqüente naufrágio fatal.
O homem desce à cova de sua própria ignorância.
As reservas de água, tanto na superfície quanto subterrânea,
estão sendo poluídas por esgotos domésticos e por canais de águas
urbanas e agrícolas que transportam substâncias tóxicas.
Os mananciais, asfixiados pelos desmatamentos, agonizam.
Os rios adoecem com tanto veneno, seja pelo garimpeiro inconseqüente
que utiliza mercúrio em suas margens, para separar o ouro de outras
partículas que vem juntas ou agrupadas nele, ou, pelo delinqüente
navegante marítimo que lança às águas detritos que levam centenas
ou até milhares de anos para serem decompostos.
Quaisquer
mega-projetos de reciclagem e reutilização da água, já em voga em
países como o Japão e Estados Unidos, serão quase sempre
insuficientes enquanto não se adquirir, fundamentalmente, a cultura
de racionamento e preservação.
No
mundo todo, são seis bilhões e meio de habitantes, consumidores
responsáveis por esse patrimônio da vida.
Medidas simples são relevantes na contenção de desperdícios:
o reparo ou troca do vedante das torneiras; o banir dos supérfluos
como lavagens costumeiras e exageradas de carros e calçadas.
Assim como também a vazão desnecessária dos banhos
displicentes. Informar a
ocorrência de canos furados ou deteriorados aos órgãos responsáveis
pela manutenção e distribuição de água, é também importante
exercício de conscientização, pois a água escorrida pelos ralos ou
esgotos nos traz prejuízos inestimáveis.
Poupar água não é uma providência que se deve tomar apenas
em épocas de seca. Poupar
água é uma questão de sobrevivência.
É
mister reconhecer que, se o homem abolir definitivamente a idéia de
natureza-lixeira, estará contribuindo para a melhoria da qualidade de
vida desta e de futuras gerações.
Evitando derrubadas e queimadas da floresta manterá, por
conseguinte, altivos e absolutos os mananciais.
E assim, o hoje existirá amanhã.
Isso possibilitará que o homem não se torne uma espécie em
extinção, e possa fechar os olhos e olhar para dentro de si mesmo, e
ao invés da dolorosa confissão: “minha
culpa, minha máxima culpa”,
possa pronunciar com orgulho de único ser racional e expoente da criação:
“minha água,
minha vida”!
